Cibersegurança: o ativo invisível que o mercado ainda ignora
- IPV7

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Por Droander Martins, CEO da IPV7.GROUP
A cada nova rodada de investimentos, M&A ou plano de expansão, existe um ativo intangível que ainda é ignorado por boa parte dos decisores: a segurança cibernética. Invisível aos olhos, fora do balanço contábil e ausente de muitas due diligences, ela é o risco silencioso que pode evaporar uma operação inteira em questão de minutos.
O dado que escancara essa negligência é simples e brutal: 80% das empresas de médio e grande porte no Brasil ainda não possuem um plano real de resposta a incidentes. O que isso significa na prática? Que a maior parte das empresas segue crescendo sem qualquer preparo para lidar com a eventualidade mais destrutiva da nova economia: um ataque digital de alto impacto.
Enquanto isso, lideranças continuam tratando a segurança digital como um tema técnico, de área de suporte. Poucos perceberam que, em um mundo onde valor de mercado depende de dados, operações digitais e reputação, a segurança é o novo ativo silencioso: um critério crítico de confiabilidade, continuidade e valor.
O erro de origem está na forma como as organizações categorizam os riscos. Existe um arsenal de processos para avaliar riscos financeiros, regulatórios, operacionais. Mas o risco cibernético segue marginalizado. Por quê? Porque ele exige uma combinação rara de mentalidade estratégica e conhecimento técnico. E é justamente essa lacuna que tem tornado as empresas brasileiras alvos fáceis.
Mas não é uma questão de ferramenta. É uma questão de mentalidade. O problema não é a falta de firewalls, licenças ou dashboards. O que falta é entendimento real do papel da segurança digital dentro da continuidade de negócios, dentro da estratégia de crescimento e, sobretudo, dentro da proteção ao investimento.
Vamos ser objetivos: nenhuma empresa está segura por padrão. Não importa o setor, tamanho ou maturidade digital. A diferença está entre quem se prepara para ser atacado e quem prefere contar com a sorte. E sorte, como se sabe, não é estratégia.
Cada vez mais, o mercado reconhece isso. Gestores começam a incluir cibersegurança nas pautas de conselhos. Fundos exigem respostas concretas sobre proteção de dados e continuidade operacional. E, do outro lado, consumidores e clientes estão menos tolerantes com falhas e vazamentos. Ninguém quer se relacionar com uma empresa vulnerável.
Mas reconhecer o problema não é suficiente. É preciso atualizar a forma de enfrentá-lo. E isso significa ir além dos modelos tradicionais de defesa.
Por muito tempo, pentests foram o padrão-ouro da validação de segurança. Ainda são importantes. Mas se tornaram insuficientes. A maior parte das empresas ainda se apoia em ciclos pontuais, testes agendados e relatórios genéricos baseados em automação. Isso é o equivalente digital a trancar a porta da frente e esquecer as janelas escancaradas.
Cibersegurança moderna exige vigilância constante, com inteligência real. E é nesse ponto que o modelo de Bug Bounty ganha protagonismo. Trata-se de uma estratégia de defesa ativa, na qual empresas expõem suas superfícies digitais para serem testadas continuamente por especialistas que pensam como atacantes, mas agem como aliados.
O Bug Bounty é o equivalente digital a contratar um time de ladrões éticos para tentar invadir sua empresa, todos os dias, em busca de falhas que você ainda não viu. Mas em vez de roubo, eles entregam relatórios. Em vez de prejuízo, entregam antecipação.
Mais do que um teste, é uma mudança de cultura. De reativa para proativa. De conformidade para inteligência. De conforto para desafio constante. É colocar o castelo sob ataque controlado, justamente para garantir que ele continue de pé quando o ataque real vier.
E esse ataque vai vir. A questão é: você vai estar pronto?
O Bug Bounty também ressignifica a relação entre empresa e vulnerabilidade. Em vez de esconder ou punir quem encontra falhas, a empresa recompensa quem ajuda a evitá-las. Isso transforma o modelo mental da segurança: sai o medo da exposição, entra a coragem da prevenção. E, nesse processo, constrói-se um ecossistema de defesa mais rápido, inteligente e alinhado com a dinâmica real das ameaças.
Outro ponto crítico: o papel da liderança. Segurança não é um tema para delegar. CEOs, CFOs, conselheiros e investidores precisam assumir protagonismo nessa agenda. Porque no final do dia, não é o somente o CISO quem responde ao mercado, à imprensa ou aos órgãos reguladores quando uma crise explode. É a liderança.
E para a liderança se posicionar com autoridade diante dessa agenda, é preciso integrar a segurança ao core da estratégia corporativa. Isso significa orçamento próprio, metas claras, métricas de sucesso e accountability. Significa tratar incidentes como eventos de negócio, e não apenas como "falhas técnicas".
Não se trata apenas de evitar ataques. Trata-se de proteger o que foi construído, o que está sendo negociado, o que se pretende crescer. Trata-se de proteger o equity. Trata-se de evitar que o valor que levou anos para ser consolidado desapareça em segundos, com um simples acesso indevido.
Segurança é um diferencial de governança. Empresas que adotam Bug Bounty como camada viva de validação reforçam a própria reputação. Transmitem confiança para o mercado, para os parceiros, para os consumidores. É uma declaração prática: aqui, levamos segurança a sério.
Investidores, conselheiros, gestores: olhem de novo para a segurança. Ela não é mais um tema técnico. É um componente direto de proteção ao capital. Uma variável crítica de continuidade. Um diferencial competitivo que separa empresas confiáveis de potenciais passivos.
Cibersegurança não é só firewall. É equity. É reputação. É valor.


